sexta-feira, 26 de junho de 2009

O cheiro.

É engraçado como um simples aroma consegue nos fazer viajar por um mundo que para nos já estaria esquecido.

Este mundo a que me refiro, não é o mundo fantasioso, mundo que nunca existiu, a não ser em nossa cabeça. O mundo que me refiro é o mundo das lembranças, do passado, daquilo que queremos que fique para trás, ou que, por causa da rotina, sem querer deixamos um pouco de lado até cair no esquecimento.

Contudo, por mais que desejemos esquecer ou por mais que a rotina atrapalhe nossa memória, o destino sempre acha um jeito de nos lembrar das situações ou de pessoas que até então estavam no passado. Para isso, o destino encontra as mais inusitadas formas e jeitos, pode ser nos fazendo encontrar pessoas, nos levando a lugares especiais ou até mesmo uma simples foto que o destino nos fez encontrar no fundo daquela caixa velha. Porém, dentre todos os meios que o surpreendente destino se utiliza, o que mais me intriga é o cheiro.

É incrível para mim, como ao sentirmos um simples cheiro, somos remetidos quase que automaticamente ao nosso passado, a situações muitas vezes simples, que não fazíamos idéia de que um dia o cheiro fosse nos proporcionar essa viagem. Pode ser qualquer cheiro, um perfume, um cheiro de novo, um cheiro ruim, um cheiro de jasmim no meu caso.
O cheiro de Jasmim é o grande motivo deste texto, não particularmente o cheiro, mais a lembrança a que ele me remete. Este cheiro, para mim, é igual um tele transportador, ou melhor, uma máquina do tempo.

Lembro-me bem, eu tinha uns 10 anos e tínhamos (ainda temos) um apartamento em Salinas, cidade de praia perto de Belém. Íamos freqüentemente para lá e perto de casa, descendo uma rua, acontecia o que chamávamos de barraquinha, era uma área na orla da praia, onde ficavam várias barracas de brinquedos e coisas pra vender, começava as 6 da tarde e era sempre lotada, todo mundo ia para la brincar e comprar coisas, mas para mim, tudo isso era o de menos. No fundo eu não gostava da barraquinha, eu gostava era do trajeto que fazia até a barraquinha, eu gostava da companhia do meu pai. Eu e ele sempre íamos passear lá. Vocês devem estar se perguntando por que esse trajeto era tão importante para mim?

Para mim o trajeto até a barraquinha, na companhia de meu pai era tudo que queria, era a parte mais importante para mim. Geralmente saiamos de casa por volta das 7 da noite e descíamos a rua cheia de casas e árvores, meu pai sempre de mãos dadas comigo, ia conversando. Andávamos pela rua tão atentos um ao que o outro falava, que as casas pareciam invisíveis para nós, porém uma certa casa sempre nos fazia parar. E era esta parada que valia por todo o passeio.

Esta casa tinha um muro alto e branco, que nos impedia de ver para dentro, mas nós não estávamos ali para ver a casa e sim uma grande e cheirosa árvore de jasmim que o muro, apesar de alto, não a impedia de me ver e principalmente de nos a vermos e sentir seu aroma. Esta cheirosa e delicada árvore, era sempre tão gentil conosco, pois sempre deixava algumas de suas flores escorregarem para fora do muro e eu a adorava por isso.

Meu pai, sempre que paravamos nesta casa, pegava uma das flores "fujonas" de árvore de jasmim e a colocava em meu cabelo, engatada por cima de minha orelha e aquele cheiro e o ato de carinho de meu pai ficavam comigo a noite toda.

Hoje, depois de tanto tempo, ao sentir o cheiro de jasmim de novo, pude me sentir com 10 anos, parada com meu pai de frente para o grande e branco muro, que exalava o cheiro mais doce e calmo do mundo para mim e que sempre me passava um sentimento de carinho do meu pai. Devo ter ficado uns 10 minutos desligada hoje, sentindo este cheiro, não consigo até agora imaginar de onde tenha vindo este cheiro tão bom e como não se perdeu no meio de tanta fumaça e poluição. Contudo, devo agradecer ao destino e suas coincidências por me relembrar coisas tão bonitas do passado e por me fazer perceber que não precisamos de muito para termos um momento de felicidade, basta um cheiro, uma flor, uma árvore, um gesto ou até mesmo uma simples lembrança.